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"De dentro do ap"

Como mulher dita feminista, estou plenamente consciente de que o feminismo que atende às minhas necessidades e reivindicações, de mulher branca, classe média e com curso superior, é completamente diferente daquele que deveria atender a mulher negra, periférica, pobre, marginalizada. “Para quem serve o teu feminismo?”, já ouvi perguntarem. E este questionamento deveras perturbador ressoa na minha cabeça dia sim e outro também, porque um feminismo que exclui mulheres e ignora as diferentes realidades sociais é um feminismo aleijado, que gera mais barulho do que mudanças. Deixo aqui um clipe da Bia Ferreira e um convite – especialmente às minhas amigas e conhecidas, também feministas, também brancas e também de classe média com curso superior – para assistir, refletir e nos perguntar: para quem serve o nosso feminismo? Mas antes se preparem para levar um surra moral e emocional, gurias. Porque, como diz a letra, faz muito tempo que estamos deixando pra amanhã. Faz muito tempo que estamos só …

Encontro Nacional dos Anos Iniciais

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Levarei meses para digerir tudo o que vi, ouvi e aprendi durante o Encontro Nacional dos Anos Iniciais, que aconteceu no Colégio Sinodal Rui Barbosa, de Carazinho/RS, nos dias 24 e 25 de maio. Foram palestras, atividades, debates e estudos de caso tão fascinantes quanto desafiadores, que não apenas me puseram a refletir, mas também me inspiraram, me questionaram, me instigaram, me tiraram do quadrado e me jogaram pra lá e pra cá. Por conta do projeto Nascedouro, estou sempre dentro de escolas, porém não sou professora, coordenadora, diretora. Não vivencio o dia a dia, os desafios, as dificuldades, as transformações que acontecem ali, o tempo inteiro. Afinal, meus caros amigos com mais de 30 anos, a escola que nós conhecíamos e na qual estudamos, a realidade que nós vivenciamos, os conflitos e as oportunidades com os quais nos deparamos na época escolar mudaram drasticamente. O mundo, as tecnologias, a estrutura familiar, política e social, tudo é novo, tudo é diferente. E é neste cená…

"Uma Carta por Benjamin": 10 anos depois

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Dez anos atrás, exatamente no dia 16 de abril de 2009, a partir das 19h, eu lançava meu primeiro livro, “Uma Carta por Benjamin”, um romance policial sobre drogas azuis, um publicitário frustrado, uma terrorista arrependida e cartas anônimas enviadas pelos Correios em um envelope pardo. O livro foi lançado pela Editora Multifoco, editado pelo meu bróder Frodo Oliveira, e teve uma primeira tiragem minúscula: 50 exemplares. Todo o lançamento, do planejamento até a execução e divulgação, foi feito na base da intuição. Até então, eu nunca tinha sequer ido a um lançamento de livro, não fazia a menor ideia de como funcionava e nem do que acontecia, mas com 24 anos, quem se preocupa com detalhes e resultados? Eu é que não. Tudo o que importava pra mim no dia 16 de abril de 2009 era que meu livrinho estava ali, publicado, impresso, materializado, tão lindo e cheirosinho. O resultado concreto do meu trabalho de tantos meses. Se o lançamento ia dar certo ou ser um fiasco; se as pessoas iriam apar…

#BaúDeCrônicas: Conectar-se com o diferente: você é capaz?

Sabemos que nosso cérebro sempre reage quando entramos em contato com algo que não estamos acostumados. Qualquer situação que nos tire do lugar onde confortavelmente existimos coloca nossa mente a trabalhar em alerta máximo. Por isso o diferente é assustador: por que o desconhecemos. O diferente nos coloca em uma situação inesperada e desafiadora, e nosso cérebro primata reage atacando. Uma tentativa de nos defender do que não nos é familiar. Assim, quando vemos um casal homossexual se beijando, nos sentimos constrangidos. Quando cruzamos por uma travesti na rua, ela chama nossa atenção de uma forma perturbadora. Quando conhecemos alguém com deficiência, ficamos atordoados e melindrosos. A não ser, é claro, que você seja ou conviva com casais homossexuais. Ou que seja ou conviva com uma travesti. Ou que seja ou conviva com uma pessoa com deficiência. O nosso cérebro se adapta ao nosso universo (que, convenhamos: é pequeníssimo), e dali parte para definir o que é “normal” e o que é “anorm…

A água vence o fogo

Desfaça esta cara de surpresa e pense comigo: Eles nunca esconderam quem eram quando não estavam contigo. Não dê pinta de desentendido, Porque o teu sexto sentido tentou te avisar: o inimigo está ali escondido Disfarçado de amigo Sentado ao teu lado na mesa do bar.
Nós nos enganamos; não vimos por trás daquele disfarce brando O lobo escondido entre o bando, doido para atacar. Mas foi só chegar o porta-voz da matilha, que toda a quadrilha postou-se a marchar Dançando ao redor da fogueira a crepitar Queimando toda e qualquer crença que da sua discordar.
Porém a água vence o fogo, E mal sabem os tolos que nós somos fonte a jorrar. Apagando as labaredas, Atravessando paredes, pedras, muros e trincheiras Nós somos rio, chuva, lágrima e cachoeira, Nós somos o mar.
Seguimos contra as correntes, Caminhamos em meio às serpentes, Combatemos soldados mal-amados, armados até os dentes, Enfrentamos covardes disfarçados de valentes, homens de corações doentes. Desafiamos os conservadores contentes, Tiramos a roupa do…

Lamento informar, mas não. Você não pode tudo

Livros de autoajuda, coachings, nossa mamãe, vovó e titia, os youtubers e gurus motivacionais: vivemos em uma sociedade que passa o tempo todo dizendo que nós podemos conseguir tudo o que quisermos. O céu não é o limite e não há nada que você não possa. Querer é poder. Você é capaz, você é incrível, você é especial, único e extraordinário. Esforce-se e obterá, porque afinal você pode tudo. Bem, lamento ter que dizer isso, mas não. Você não pode tudo não. Nem você, nem eu e nem o Papa. A verdade é que muitos dos nossos sonhos não vão se realizar, não importa o quanto a gente queira e se esforce. Vamos ouvir centenas de nãos, vamos desistir de vários projetos, vamos ver relações importantes se desintegrarem. Vamos nos dedicar muito e não vai adiantar nada. Sabe por quê? Primeiro porque é assim que a vida é. Nunca, na história da humanidade, houve sequer uma criatura que conquistou tudo o que quis; que jamais lidou com desilusões; que desconhece a decepção. E segundo, porque nós não somos …

A mensagem e o mensageiro

Desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência da República, a sexualidade de seu segundo filho, Carlos Bolsonaro, entrou em pauta. Dizem por aí que o rapaz é homossexual; que mora com um primo que, na verdade, é seu companheiro. Comentam que, na posse de seu pai, enquanto os demais filhos de Jair estavam ao lado de suas respectivas esposas, Carlos estava ao lado do tal primo. Desencavaram postagens, fotografias e comentários nas redes sociais que teoricamente confirmariam sua homossexualidade. Li, vi e ouvi milhares de piadas, muitas extremamente grosseiras e maldosas, debochando e ridicularizando o fato de um dos filhos do presidente considerado homofóbico ser gay. Tem vezes que eu não entendo a oposição na qual me incluo. Porque, no meu caso, o que sempre me perturbou em Jair Bolsonaro é justamente o seu discurso agressivo contra minorias: LGBTs, negros, índios, mulheres. Desde uma época em que eu jamais imaginava que o deputado intolerante se tornaria nosso presidente, já repudiava …