Postagens

Com licença,

Pedimos licença, senhoras e senhores Monas e nonas, manos e manas Estamos passando, pois somos o bando, o bonde, a banda, a caravana
Somos carruagem desgovernada Que não vira abóbora depois da ceia, Não usamos sapatos, não fazemos cena Nossos pés não tocam A superfície plena do palco Sobre o qual os atores encenam e acenam à realeza
Por cães latindo vamos seguindo Por tolos bradando vamos passando Em meio a lobos disfarçados de manso cordeiro O caos, o Cão, o caô, o sorrateiro Feitiços, macumbas, rituais; Ordeiros e matreiros Nada, nada freia o bando que vai
Nada freia, nada segura, nada detém De pés descalços vamos indo além Por sobre macumbas, profetas e falso desdém Ninguém nos atém, estão todos muito aquém
Pedimos mais uma vez licença, senhoras e senhores Monas e nonas, manos e manas Carcaças, mordaças, carapaças e trapaças Peço que abram espaço, todas as desgraças! Pois somos o bando, o bonde, a banda, a caravana.
Não usamos sapatos, não trazemos certezas Os nossos pés não tocam o mesmo chão No qual os t…

Os corruptos originais

A greve dos caminhoneiros – e todos os efeitos colaterais que ela trouxe para nossa vida cotidiana – fez muito brasileiro descobrir o óbvio: nossos políticos não são de Marte. Eles não são alienígenas que vieram de uma galáxia muito distante só para nos roubar e nos fazer de otários. Não, nada disso! Eles vêm diretamente do útero da nossa sociedade; eles são parte integrante de cada um de nós. A verdade dura, nua e crua é uma só: um país que produz políticos corruptos em série, como é o caso do Brasil, é um país de cidadãos corruptos. Assim sendo, em meio a uma crise política, econômica e popular, no epicentro de uma greve nacional, resolvemos vender um saco de batatas por R$500. Cobramos quase R$10 o litro da gasolina, e uma dúzia de alface, que antes saía por R$8, passou para R$20 em questão de algumas horas. Durante a paralisação, que buscava justamente frear a roubalheira sem fim, decidimos que era uma boa ideia roubar também. Então superfaturamos todos os produtos, com a clara in…

Os porcos e os homens

Devo advertir que este texto não é pra você, que acredita que o Lula é um herói. Este texto também não é pra você, que acha o juiz Sérgio Moro um herói. Tampouco é pra você, que considera o Bolsonaro um herói. Resumidamente, este texto não é para quem acredita que existe algum herói neste lodo de corrupção no qual chafurdamos com tanta convicção. Imagino que tenham sobrado poucos leitores no quinto parágrafo de um texto como este, mas é exatamente para estes leitores que eu quero escrever. Para aqueles que, assim como eu, estão mais perdidos que cachorro em dia de mudança no meio deste Gre-Nal politiqueiro de quinta categoria. Porque é tudo preto ou branco, sem opções de cinza: ou se torce pelo Lula ou se torce pelo Moro. Ou é pão com mortadela ou é coxinha. Ou odeia os pobres ou odeia os ricos. Ou defende o bandido ou quer o bandido morto. Ou está comigo ou está contra mim. Entretanto, eu não consigo dividir o mundo entre nós e eles – pelo menos não aqui, na parte debaixo desta pirâmide …

Vaidade Intelectual

O título deste texto dá nome a uma característica bastante comum em pessoas estudadas e eruditas: se achar superior por ser estudada e erudita. Então debocham de quem fala errado, de quem não sabe escrever direito, de quem não consegue se expressar com clareza. O que estas pessoas letradas ignoram – tornando-se, assim, tão ignorantes quanto quem criticam – é que saber escrever e se comunicar com propriedade são privilégios. Ser intelectualmente ativo, comunicativo e instruído, e saber conectar as informações para transformá-las em conhecimento, geralmente são características de pessoas com acesso à educação de qualidade, dentro e fora da escola. Uma regalia para poucos afortunados neste país de nome Brasil. Eu, por exemplo, que me chamo de escritora, sou filha de leitores, e cresci em um lar abarrotado de livros, revistas, jornais e gibis. Frequentei por toda a vida um colégio particular, fiz aulas de desenho, pintura e balé, participei de oficinas de artesanato. Tenho formação superi…

A exceção que deu certo continua sendo exceção

Vez ou outra surge na televisão ou no Facebook uma história de superação heroica: o cara que trabalhava 14 horas por dia catando papelão e se formou em Medicina. A criança que caminha 20 quilômetros para ir até a escola e ganhou um prêmio internacional de matemática. A mãe que formou na faculdade os cinco filhos trabalhando como doméstica. Histórias incríveis de pessoas que, apesar da pobreza, das limitações, dos preconceitos, das dificuldades, prosperaram e venceram, contra tudo e contra todos. Aí a criatura que nunca catou papelão, e muito menos trabalha 14 horas por dia; aquela que o pai levava e buscava na porta da escola; a mesma que já está cursando sua terceira faculdade, vem e me diz: – Viu? É só querer! Claro, é o mais fácil. Focamos na exceção que deu certo, e ignoramos a enorme massa que “não deu certo” (também conhecida como: a regra), empurrando sobre ela toda a responsabilidade por sua condição. Assim, conforme esta ótica, os catadores de lixo não se formam em Medicina “po…

O corpo, a mente e o biquíni

Tenho 33 anos de idade, e sabe qual foi a última vez que usei um biquíni? Quando ainda era criança. Porque assim que coloquei meus pezinhos na pré-adolescência, descobri que era preciso “ter corpo” para usar biquíni, saia curta, barriga de fora. Um corpo magro, esbelto, definido, assim e assado e etc. Um corpo que não poderia ser mais diferente do meu, que afinal era uma criança, e já me via afogada em lições sobre como eu deveria ser fisicamente, e não era. Foi quando fiquei com vergonha de mim. Naquele verão de 1996, viajei para a praia com os meus pais e passei a temporada inteira usando uma camiseta gigantesca sobre o biquíni, inclusive para entrar no mar. Escrevi no diário: “não uso biquíni porque estou gorda”. Eu tinha 11 anos. O tempo passou, eu cresci, conheci o feminismo e fui compreendendo o complexo processo que faz uma menina de 11 anos sentir vergonha do próprio corpo. Acredito que já me libertei de muitas destas insanidades que enfiam em nossas cabeças, de que precisamos …

Ingênuos, como toda criança

Nós acreditamos piamente na propaganda da TV, garantindo que só seremos felizes e legais quando comprarmos este carro, este celular ou este sabonete, tal e qual uma criança que acredita em Papai Noel e Fada dos Dentes. Defendemos com convicção o discurso deste ou daquele político, deste ou daquele partido, deste ou daquele lado, como a criança defende seu brinquedo preferido. Brigamos com dedicação por causa de bandeiras, siglas e insígnias, igualzinho a criança que briga com o coleguinha no recreio pra ver quem vai comprar o lanche primeiro. Confiamos cegamente em gurus, guias, pastores e mestres espirituais, do mesmo jeito que uma criança confia cegamente em sua mamãe. A realidade, amigos leitores, é que, enquanto sociedade, ainda estamos em plena infância mental e emocional. Agimos e reagimos feito criancinhas diante de tudo o que nos contraria ou fuja de nossa minúscula zona de conforto. Claro que, como todo ingênuo, não achamos que somos ingênuos. Como toda criança, juramos que não…