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"Uma Carta por Benjamin": 10 anos depois

Dez anos atrás, exatamente no dia 16 de abril de 2009, a partir das 19h, eu lançava meu primeiro livro, “Uma Carta por Benjamin”, um romance policial sobre drogas azuis, um publicitário frustrado, uma terrorista arrependida e cartas anônimas enviadas pelos Correios em um envelope pardo. O livro foi lançado pela Editora Multifoco, editado pelo meu bróder Frodo Oliveira, e teve uma primeira tiragem minúscula: 50 exemplares. Todo o lançamento, do planejamento até a execução e divulgação, foi feito na base da intuição. Até então, eu nunca tinha sequer ido a um lançamento de livro, não fazia a menor ideia de como funcionava e nem do que acontecia, mas com 24 anos, quem se preocupa com detalhes e resultados? Eu é que não. Tudo o que importava pra mim no dia 16 de abril de 2009 era que meu livrinho estava ali, publicado, impresso, materializado, tão lindo e cheirosinho. O resultado concreto do meu trabalho de tantos meses. Se o lançamento ia dar certo ou ser um fiasco; se as pessoas iriam apar…

#BaúDeCrônicas: Conectar-se com o diferente: você é capaz?

Sabemos que nosso cérebro sempre reage quando entramos em contato com algo que não estamos acostumados. Qualquer situação que nos tire do lugar onde confortavelmente existimos coloca nossa mente a trabalhar em alerta máximo. Por isso o diferente é assustador: por que o desconhecemos. O diferente nos coloca em uma situação inesperada e desafiadora, e nosso cérebro primata reage atacando. Uma tentativa de nos defender do que não nos é familiar. Assim, quando vemos um casal homossexual se beijando, nos sentimos constrangidos. Quando cruzamos por uma travesti na rua, ela chama nossa atenção de uma forma perturbadora. Quando conhecemos alguém com deficiência, ficamos atordoados e melindrosos. A não ser, é claro, que você seja ou conviva com casais homossexuais. Ou que seja ou conviva com uma travesti. Ou que seja ou conviva com uma pessoa com deficiência. O nosso cérebro se adapta ao nosso universo (que, convenhamos: é pequeníssimo), e dali parte para definir o que é “normal” e o que é “anorm…

A água vence o fogo

Desfaça esta cara de surpresa e pense comigo: Eles nunca esconderam quem eram quando não estavam contigo. Não dê pinta de desentendido, Porque o teu sexto sentido tentou te avisar: o inimigo está ali escondido Disfarçado de amigo Sentado ao teu lado na mesa do bar.
Nós nos enganamos; não vimos por trás daquele disfarce brando O lobo escondido entre o bando, doido para atacar. Mas foi só chegar o porta-voz da matilha, que toda a quadrilha postou-se a marchar Dançando ao redor da fogueira a crepitar Queimando toda e qualquer crença que da sua discordar.
Porém a água vence o fogo, E mal sabem os tolos que nós somos fonte a jorrar. Apagando as labaredas, Atravessando paredes, pedras, muros e trincheiras Nós somos rio, chuva, lágrima e cachoeira, Nós somos o mar.
Seguimos contra as correntes, Caminhamos em meio às serpentes, Combatemos soldados mal-amados, armados até os dentes, Enfrentamos covardes disfarçados de valentes, homens de corações doentes. Desafiamos os conservadores contentes, Tiramos a roupa do…

Lamento informar, mas não. Você não pode tudo

Livros de autoajuda, coachings, nossa mamãe, vovó e titia, os youtubers e gurus motivacionais: vivemos em uma sociedade que passa o tempo todo dizendo que nós podemos conseguir tudo o que quisermos. O céu não é o limite e não há nada que você não possa. Querer é poder. Você é capaz, você é incrível, você é especial, único e extraordinário. Esforce-se e obterá, porque afinal você pode tudo. Bem, lamento ter que dizer isso, mas não. Você não pode tudo não. Nem você, nem eu e nem o Papa. A verdade é que muitos dos nossos sonhos não vão se realizar, não importa o quanto a gente queira e se esforce. Vamos ouvir centenas de nãos, vamos desistir de vários projetos, vamos ver relações importantes se desintegrarem. Vamos nos dedicar muito e não vai adiantar nada. Sabe por quê? Primeiro porque é assim que a vida é. Nunca, na história da humanidade, houve sequer uma criatura que conquistou tudo o que quis; que jamais lidou com desilusões; que desconhece a decepção. E segundo, porque nós não somos …

A mensagem e o mensageiro

Desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência da República, a sexualidade de seu segundo filho, Carlos Bolsonaro, entrou em pauta. Dizem por aí que o rapaz é homossexual; que mora com um primo que, na verdade, é seu companheiro. Comentam que, na posse de seu pai, enquanto os demais filhos de Jair estavam ao lado de suas respectivas esposas, Carlos estava ao lado do tal primo. Desencavaram postagens, fotografias e comentários nas redes sociais que teoricamente confirmariam sua homossexualidade. Li, vi e ouvi milhares de piadas, muitas extremamente grosseiras e maldosas, debochando e ridicularizando o fato de um dos filhos do presidente considerado homofóbico ser gay. Tem vezes que eu não entendo a oposição na qual me incluo. Porque, no meu caso, o que sempre me perturbou em Jair Bolsonaro é justamente o seu discurso agressivo contra minorias: LGBTs, negros, índios, mulheres. Desde uma época em que eu jamais imaginava que o deputado intolerante se tornaria nosso presidente, já repudiava …

92%

No Brasil, de cada 100 pessoas, somente oito são capazes de compreender e se expressar plenamente. De 100, oito conseguem interpretar e elaborar um texto, como uma matéria de jornal ou um verbete do Wikipédia. De 100, só oito estão aptas a realizar um cálculo básico de matemática, analisar um gráfico simples ou localizar informações em um cartaz ou calendário. De cada 100 de nós, apenas oito têm capacidade de formular uma opinião minimamente fundamentada. Foi o que mostrou a pesquisa Analfabetismo no Mundo do Trabalho, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e a ONG Ação Educativa, e publicada pelo jornal O Globo de fevereiro de 2016. O nível máximo da pesquisa, alcançado por 8 de cada 100 examinados, é chamado de proficiente, e todos nós deveríamos deixar o ensino médio neste patamar. Deveríamos. Porque, na realidade, menos de 10% dos estudantes brasileiros saem da escola sabendo fazer alguma coisa além de escrever o próprio nome. É duro admitir, caro leitor, mas o fato é que …

Um bônus e um ônus e vice-versa

Existe uma frase – bem cretina, por sinal – que diz “trabalhe com o que você ama e você nunca terá que trabalhar na vida”. Foi então que um espertinho fez uma releitura do ditado, e criou a “trabalhe com o que você ama e você nunca mais vai amar nada na vida”. Dois conceitos que explicitam bem a nossa infantilidade e imaturidade emocional; a nossa extrema dificuldade em admitir que a vida simplesmente não é como a gente quer que seja. Porque, de tudo, só queremos a parte boa. Reivindicamos o bônus e recusamos veementemente o ônus, apesar de um vir no encalço do outro: queremos trabalhar com o que amamos, mas não queremos compromissos, prazos nem responsabilidades. Queremos encontrar o amor da nossa vida, mas não estamos dispostos a ceder um milímetro. Queremos uma família grande, desde que todos sejam feitos conforme nossa imagem e semelhança. Aí nós conseguimos trabalhar com o que mais gostamos. Encontramos uma pessoa que amamos e que também nos ama. Formamos uma família grande e tudo…