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Por que a violência contra nós não importa?

No dia 10 de agosto de 2018 o prefeito de Não-Me-Toque, Armando Roos, teve seu mandato cassado após denúncias envolvendo assédio sexual. O prefeito foi gravado trocando cargos públicos por favores sexuais, em um vídeo embaraçoso e grotesco que não deixa margens para nenhuma dúvida. Contudo, no país do improvável, houve quem reclamou, achando tudo muitíssimo injusto: “a cidade perde um grande administrador”, alguns disseram. “Fez muito por Não-Me-Toque”, outros afirmaram. “Coitado, não merecia. É um bom homem”. Um bom homem que assediou sexualmente suas funcionárias – o que faz dele um criminoso, já que assédio sexual é crime. E não sou eu quem está dizendo; é o artigo 216-A do nosso Código Penal. Sem contar que utilizar de sua autoridade e poder para constranger e perseguir quem se encontra hierarquicamente em posição vulnerável, além de crime, é moralmente repugnante. Mas quem se importa, não é mesmo? O cara foi um ótimo administrador! Fez mais pela cidade do que qualquer outro! Melho…

Sonhos Possíveis

A gente sempre aprendeu que devemos sonhar grande. “Quem sonha baixo não levanta voo”. Eu tinha esta frase escrita na parede do meu quarto, quando era adolescente. Logo, fui crescendo sonhando grande. Eu sempre quis ser escritora, e me imaginava sendo entrevistada pelo Jô Soares, ganhando prêmios literários internacionais, dando autógrafos para fãs enlouquecidos. Achava que seria um beatle da literatura. Não riam; eu sonhava alto. Quando, obviamente, nada disso aconteceu, eu fiquei frustrada pra caramba. Desiludida. Revoltada. Seria eu uma fracassada, que sequer conseguia se tornar um beatle da literatura? “Quem sonha baixo não levanta voo”, eu havia escrito na parede. Eu tinha quase 30 anos quando finalmente entendi que esta foi apenas mais uma, das muitas lições que nos ensinaram errado. Não só eu aprendi errado, como você também, caro leitor. Porque fomos criados – pela escola, pela família, pela igreja, pela comunidade – para não nos contentar com pouco. Para não sermos “medíocres” a…

25 de julho, Dia do Escritor!

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“Se o meu médico dissesse que eu tinha apenas seis minutos para viver eu não amuava; eu teclava mais rapidamente”. (Isaac Asimov)



Feliz Dia do Escritor, meus camaradinhas!

A Teoria das Janelas Quebradas

Há alguns anos, a Universidade Stanford, nos Estados Unidos, realizou um experimento: deixou dois carros idênticos, da mesma marca, modelo e cor, abandonados na rua. Um no Bronx, região pobre e violenta de Nova York, e o outro em Palo Alto, zona rica e tranquila da Califórnia. Dois carros exatamente iguais em duas comunidades com realidades completamente diferentes. Aconteceu exatamente o que estamos imaginando: em poucas horas, o carro deixado no Bronx passou a ser vandalizado. Suas rodas, seu motor, seus espelhos, seu rádio; tudo foi roubado. E o que não foi roubado, foi destruído. Em contrapartida, o carro abandonado em Palo Alto manteve-se intacto por quase uma semana. Foi então que os pesquisadores quebraram um vidro da janela do automóvel de Palo Alto. Não demorou, e desencadeou-se o mesmo processo ocorrido no Bronx: roubo, violência e pilhagem reduziram o carro ao mesmo estado do veículo deixado no bairro pobre e marginalizado. E a pergunta de um milhão de dólares é: por que isso…

A sutil diferença entre casa e lar

Casa é uma construção com teto e paredes, capaz de lhe proteger da chuva, do frio, do sol. Lar já é um negócio bem mais complicado. E saber reconhecer a diferença entre um e outro é fundamental. Casa, muita gente tem. Própria ou alugada, grande ou pequena, muitas pessoas têm uma residência para a qual voltar no fim do dia. No entanto, lar não é algo palpável, que possa ser medido, avaliado e rotulado, comprado ou alugado. Lar é um lugar para o qual você quer voltar; um lugar no qual você gosta de estar. Onde se sente à vontade, confortável, livre e feliz. Parece simples falando assim, mas muitas pessoas que eu conheço, apesar de morarem em uma casa, não possuem um lar. O resultado: as casas onde moram são apenas isso, casas. Tetos e paredes, janelas e portas. Não são lares. Logo, estar em casa passa a ser algo tão mecânico, superficial e indiferente, talvez frio e solitário, que estas pessoas pouco ficam em suas próprias residências. E, veja bem: quando falo em lar, não falo necessariame…

A gaiola da repetição

De vez em quando me pego pensando que muitas pessoas assumem posições e opiniões sem saber, exatamente, o que estão assumindo. Porque, se soubessem, não as assumiriam, sob o risco de colocar o seu pescoço e a sua liberdade em jogo. Como papagaios, que repetem as palavras que lhe são ensinadas, “Dá o pé, Rico”, sem ter a mínima noção do que significam, nós também reproduzimos discursos sobre os quais não entendemos coisa nenhuma. Para o papagaio, palavras são apenas sons de comando, não ideias. Assim como para muitos de nós. Esta completa ausência de consciência fica ainda mais evidente na argumentação que procede estes discursos ocos. Isto é, na falta de. Qualquer possível debate morre afogado no raso, antes mesmo de se aprofundar, visto que não é possível dialogar com um papagaio. O problema é que tais posições geralmente dizem respeito a questões públicas, e não particulares; refletem-se no todo, e não apenas em nosso espelho. E é neste momento que os papagaios, de inofensivos, tornam-…

Com licença,

Pedimos licença, senhoras e senhores Monas e nonas, manos e manas Estamos passando, pois somos o bando, o bonde, a banda, a caravana
Somos carruagem desgovernada Que não vira abóbora depois da ceia, Não usamos sapatos, não fazemos cena Nossos pés não tocam A superfície plena do palco Sobre o qual os atores encenam e acenam à realeza
Por cães latindo vamos seguindo Por tolos bradando vamos passando Em meio a lobos disfarçados de manso cordeiro O caos, o Cão, o caô, o sorrateiro Feitiços, macumbas, rituais; Ordeiros e matreiros Nada, nada freia o bando que vai
Nada freia, nada segura, nada detém De pés descalços vamos indo além Por sobre macumbas, profetas e falso desdém Ninguém nos atém, estão todos muito aquém
Pedimos mais uma vez licença, senhoras e senhores Monas e nonas, manos e manas Carcaças, mordaças, carapaças e trapaças Peço que abram espaço, todas as desgraças! Pois somos o bando, o bonde, a banda, a caravana.
Não usamos sapatos, não trazemos certezas Os nossos pés não tocam o mesmo chão No qual os t…