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Ingênuos, como toda criança

Nós acreditamos piamente na propaganda da TV, garantindo que só seremos felizes e legais quando comprarmos este carro, este celular ou este sabonete, tal e qual uma criança que acredita em Papai Noel e Fada dos Dentes. Defendemos com convicção o discurso deste ou daquele político, deste ou daquele partido, deste ou daquele lado, como a criança defende seu brinquedo preferido. Brigamos com dedicação por causa de bandeiras, siglas e insígnias, igualzinho a criança que briga com o coleguinha no recreio pra ver quem vai comprar o lanche primeiro. Confiamos cegamente em gurus, guias, pastores e mestres espirituais, do mesmo jeito que uma criança confia cegamente em sua mamãe. A realidade, amigos leitores, é que, enquanto sociedade, ainda estamos em plena infância mental e emocional. Agimos e reagimos feito criancinhas diante de tudo o que nos contraria ou fuja de nossa minúscula zona de conforto. Claro que, como todo ingênuo, não achamos que somos ingênuos. Como toda criança, juramos que não…

O Uivo Literário

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A literatura é como um uivo; um grito no meio da inércia e inanição de pensamentos repetitivos e lições erradas que aprendemos e reproduzimos sem nunca questionar. A literatura é um berro contra a alienação, a superficialidade, a ignorância, as nossas certezas tão frágeis e bestas. E fico feliz em informar que amanhã vou uivar, gritar e berrar bem alto em prol da literatura, a única bandeira que levanto com convicção, na reinauguração da biblioteca Monteiro Lobato, da Escola Municipal Castelo Branco, aqui de Carazinho/RS. Porque quanto mais gente uivar, gritar e berrar junto, mais fácil será acordar aqueles que ainda estão dormindo! 
Foto: Fernão Duarte.

Ignorar o Ignorante?

Não é incomum o autor escrever um texto dizendo uma coisa e o leitor entender outra. Às vezes, o oposto do que o autor quis dizer. Isso é especialmente comum em tempos como este em que vivemos, de muita rixa e hostilidade. Estamos sempre armados, prontos para contra-atacar, rebater, discordar, criticar, apontar o suposto erro alheio. Compreendo o colapso do contexto. Contudo, enquanto escritora, trago sempre uma dúvida comigo, sobre como reagir diante de comentários de leitores discordantes e insatisfeitos. Ignoro? Respondo com a mesma agressividade? Respondo polida e educadamente? Todas as opções me parecem, de algum jeito, inadequadas. Ignorar me soa petulante. Como se eu não me importasse com a opinião do leitor. Pensar “nem vou responder este imbecil” coloca o autor em um pedestal onde só ele existe e tem razão, e todos que dele discordam são imbecis. Não gosto porque faz com que eu me sinta uma imbecil. Responder com a mesma agressividade, para mim, é mais inútil e contraproducente…

Qual exatamente é a diferença entre você e eles?

Por estes dias assisti um episódio de uma série policial americana na qual os mocinhos (que obviamente eram policiais americanos) desmantelavam uma célula terrorista formada por jovens muçulmanos, que estavam explodindo-se em trens, shoppings e avenidas. Esta célula terrorista era também a responsável pelo ataque a um grupo de soldados americanos no Iraque, sendo que o único sobrevivente da emboscada ficou sem os braços e sem as pernas. Querendo justiça pelo país e pelo soldado sobrevivente, os policiais americanos prenderam os terroristas, enquanto se questionavam muitíssimo intrigados: como é possível um jovem explodir-se em nome de sua fé? “Não dá pra entender, né?”. Até aqui, nada de novo. Porém, no final do episódio, os policiais americanos visitam o soldado sobrevivente para contar que finalmente acabaram com o grupo terrorista responsável pelo ataque que o mutilou. O soldado então sorri, agradece, e pede aos policiais que não tenham pena dele, afinal, o ataque que sofreu “foi ap…

Com boa vontade, dá!

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Sexta-feira, dia 23 de março, passei a manhã e a tarde em Rondinha/RS, participando de sua Feira do Livro – e foi lindo, com muitos abraços quentinhos e amor de montão! Ministrei três palestras, e entre uma e outra, eu ia até a pracinha que fica em frente à Prefeitura, onde aconteciam as atividades, para pegar um ar. E foi nesta pracinha que eu conheci o Espaço Criançando, um quiosque que fica aberto o dia inteiro, todos os dias, e disponibiliza livros e brinquedos para a gurizada, que está sempre ali em volta. Impossível não lembrar de nosso Mini Centro Cultural, o quiosque localizado na praça central de Carazinho – mas que, ao contrário do Espaço Criançando, fica o dia inteiro fechado, juntando sujeira e teia de aranha, e de “centro cultural” só tem o nome. Na verdade, é um depósito esquecido de tralhas e velharias. Sempre que eu passo pelo nosso “Mini Centro Cultural” (entre aspas mesmo, por que né?), fico pensando no tamanho do desperdício daquele espaço. O quiosque vive cercado de cr…

"Ideias são à prova de bala"

Esta é uma das frases ditas por V, o anti-herói do filme e dos quadrinhos V de Vingança, quando, diante de um inimigo, viu-se cercado por homens armados até os dentes, sua cabeça na mira. V sabia que poderia morrer naquele instante, mas não o que ele representava. Os princípios pelos quais lutou; a ideologia que personificava; isso seu inimigo não seria capaz de destruir nem com todas as armas e munições que existem no mundo. Ideias são concebidas, sustentadas e perpetuadas por pessoas. Contudo, em um determinado momento, tornam-se maiores do que qualquer um. Por isso a execução da vereadora Marielle Franco não foi um assassinato comum. Não por que Marielle era diferente das dezenas de milhares de vítimas de homicídio Brasil afora. A execução de Marielle Franco não foi um assassinato comum por que, ao emboscá-la e matá-la, o objetivo não era apenas emboscar e matar uma pessoa, mas uma ideia. Quando calaram Marielle com quatro tiros na cabeça, tentaram calar as muitas vozes que se comun…

A luz no fim do túnel

Estava eu na sala de espera do dentista quando vi, na televisão, um trecho da entrevista de uma bailarina, que comanda um projeto social na comunidade onde vive, uma favela do Rio de Janeiro. Infelizmente, não pude memorizar seu nome e nem mesmo o de seu projeto, mas uma frase que ela disse chamou a minha atenção: “O balé é a minha luz no fim do túnel”. Essa frase me bateu forte. Porque esta menina, que não deve ter mais de 20 anos, é negra, pobre, moradora da periferia, e com certeza já enfrentou, segue enfrentando e ainda enfrentará verdadeiras batalhas para ser quem é e fazer o que faz. Sem o balé, seriam grandes as possibilidades de que ela terminasse como tantas meninas iguais a ela: grávida prematuramente, afastada da escola, sem emprego e com quase nenhuma perspectiva. Mas havia uma luz no fim do túnel: o balé. É o balé quem dá sentido e sustento para todas as dificuldades que encara; que a faz ficar em pé, resistir, não desistir. O balé a mantém longe do crime, longe da maternid…