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Morreu um pouco de mim

É como um luto. Uma sensação de ter perdido qualquer coisa importante demais para se perder: um número de telefone de quem sabe o que eu não sei; uma esperança tola de pertencer, de merecer, de aprender o que não é permitido entender. É só o fim de algo cuja vida não resiste, não persiste e não procede à morte. Continuou escuro ao amanhecer.
Estou sem sorte, sem norte, sem bote, capote ou qualquer meio de transporte para me salvar da tempestade forte que me engoliu sem eu perceber. Entendo que não há jeito de deter o temporal e o luto; que a luta já foi perdida; que não dá mais para vencer. Sem resistir e nem me desculpar pelo transtorno, eu me entrego e tombo pra dentro da escuridão do alvorecer.
Caio neste abismo e paro com este esforço inútil de continuar em pé, fingindo força que nem tenho. Não nasci mártir, não sou fortaleza. Não tenho certeza, linhagem ou nobreza. Sou correnteza a correr. Não transformo mais a dor em raiva; só deixo doer. Abraço a tristeza; não crio atrito e nem re…

O leitor-censor: onde vive e do que se alimenta

A censura, segundo o dicionário, é “o exame de trabalhos artísticos ou informativos que busca filtrar e proibir o que é inconveniente do ponto de vista ideológico e moral”. Do ponto de vista ideológico e moral do censor, acrescento. A ideia fundamental da censura é calar quem discorda, geralmente para proteger os próprios interesses. Houve um tempo em que a censura vinha em forma de canetaço, bem descarada e escancarada; hoje, no entanto, ela veste mil máscaras, e surge tão discretamente que você nem percebe que ela está ali. Porque agora não é mais o governo ou o ditador que intimida e silencia. É o censor disfarçado de leitor, que eu carinhosamente apelidei de leitor-censor. A internet é o seu habitat natural; é onde vive e procria, alimentando-se do mesmo veneno que espalha. Protegido atrás da tela, é dali que garimpa quem não pensa como ele e ataca. Também costuma andar em bando, para parecer maior e mais forte do que de fato é. Entretanto, o leitor-censor geralmente não se conside…

Um uivo para Fausto Wolff

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Fausto Wolff me ensinou que existe um jogo em andamento. Um jogo que eu e você não jogamos, porque afinal somos as peças, não os jogadores. Algumas estão cientes do jogo; outras não. Algumas acreditam que são jogadores; outras sabem que não são. Fausto Wolff sabia do jogo e sabia que não jogava; era apenas mais uma peça em cima do tabuleiro, a bola de bilhar ou futebol, as cartas sobre a mesa e sob as mangas. Mas, ao contrário das demais peças que, conformadas à sua condição inanimada, desempenham sua função sem dar um pio, Fausto desgarrou-se do papel de mero utensílio. Recusou-se a ser só mais um elemento inerte nas mãos de quem joga o jogo do qual nunca poderemos sair vitoriosos. Peças não jogam; logo, não podem vencer. Quinze anos atrás, quando conheci Fausto Wolff, eu já desconfiava que havia algo errado no paraíso. Um incêndio ardia sob a chuva fina. Alguma coisa não cheirava bem, eu podia pressentir. O caminho que se esboçava, emprego-casamento-chefe-filho-prestação, e para o qu…

Quem é o bandido que você quer ver morto?

Eu não gosto do Jair Bolsonaro. Discordo veementemente de seu discurso, de sua postura, de suas ideias, e não gostaria de viver em um país governado por ele. Entretanto, não quero Jair Bolsonaro morto. Não quero ninguém morto, aliás. Nem o ladrão e nem a polícia. Nem o branco e nem o preto. Nem o rico e nem o pobre. Nem o coxinha e nem o pão com mortadela. Nem eu e nem quem pensa diferente de mim. Daí minha incompatibilidade e rejeição ao Bolsonaro e tudo o que ele representa. Ocorre que, ao contrário de mim e exatamente como Jair Bolsonaro, Adélio Bispo de Oliveira, o homem que o esfaqueou, quer ver sangue. Adélio, assim como Bolsonaro, acredita que existem pessoas que merecem morrer. A diferença é que Bolsonaro quer matar “o bandido” e Adélio quer matar o Bolsonaro – que, para Adélio, é “o bandido”. O maior problema em querer ver o bandido morto é definir quem é o bandido que deve morrer. Seria o sujeito que espreita tua casa de madrugada? O vizinho que estacionou o carro na porta da…

Porra, maridos!

Recentemente, surgiu nas redes sociais a hashtag #PorraMaridos que, assim como ocorreu em campanhas anteriores, buscou reunir relatos de violência contra a mulher, seja esta violência física, verbal, mental ou sexual. #PorraMaridos trouxe histórias de mulheres descrevendo situações em que seu companheiro se fez de sonso para passar bem: tem o que não colocou a roupa de molho porque não sabia se usava um balde ou uma bacia. O que esqueceu a própria mala em uma viagem e reclamou dizendo que a esposa era a culpada por não lembrá-lo. O que se recusou a recolher o cocô do cachorro porque “não tinha estômago pra isso”. O que não lavava as panelas porque não sabia o que fazer com a comida que está dentro. O que deixou a mulher sozinha no hospital porque estava com um pelo encravado “que doía muito”. Aquele que colocou a roupa na máquina de lavar, conforme a esposa pediu, mas que não ligou a máquina porque, afinal, isso ela não pediu. Dezenas, centenas, milhares de depoimentos de mulheres de t…

Efeito Dominó

Chama-se de Efeito Dominó a ideia de que basta o primeiro elemento ser impulsionado, para que todos os demais sejam diretamente afetados pelo movimento de um único dominó. Assim também é na vida. Ao contrário do que muitos pensam, e daquilo que os filmes e os livros tentam nos convencer, a mudança do mundo não se dará abruptamente, através de um evento apocalíptico e de grandes proporções, com prédios explodindo e deuses descendo dos céus. A mudança do mundo acontece através do movimento e da transformação de cada indivíduo. Da mudança de cada um de nós. No entanto, ainda não assimilamos a ideia de que, se formos o dominó que sai do lugar, automaticamente as demais peças em nossa volta entrarão em movimento, mesmo que involuntário – e também sairão do lugar. Por esta razão, muitas vezes passamos nossa vida inteira esperando que algum outro dominó tome a frente do movimento, para que só então possamos, também, nos movimentar. Daí a frustração, a raiva, o aborrecimento, a tristeza e a ans…

Por que a violência contra nós não importa?

No dia 10 de agosto de 2018 o prefeito de Não-Me-Toque, Armando Roos, teve seu mandato cassado após denúncias envolvendo assédio sexual. O prefeito foi gravado trocando cargos públicos por favores sexuais, em um vídeo embaraçoso e grotesco que não deixa margens para nenhuma dúvida. Contudo, no país do improvável, houve quem reclamou, achando tudo muitíssimo injusto: “a cidade perde um grande administrador”, alguns disseram. “Fez muito por Não-Me-Toque”, outros afirmaram. “Coitado, não merecia. É um bom homem”. Um bom homem que assediou sexualmente suas funcionárias – o que faz dele um criminoso, já que assédio sexual é crime. E não sou eu quem está dizendo; é o artigo 216-A do nosso Código Penal. Sem contar que utilizar de sua autoridade e poder para constranger e perseguir quem se encontra hierarquicamente em posição vulnerável, além de crime, é moralmente repugnante. Mas quem se importa, não é mesmo? O cara foi um ótimo administrador! Fez mais pela cidade do que qualquer outro! Melho…