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O desperdício nosso de cada dia

Se você está com sede e tem um copo de água, você bebe a água e mata a sede, ou joga a água fora e continua com sede? A pergunta parece idiota, e de fato é, mas trata-se de uma analogia perfeita para o que fazemos com nosso tempo, nossa atenção e nossa energia. Já reparou como desperdiçamos esses três itens preciosos com bobagens? Perdemos nosso tempo nos preocupando com problemas que não são nossos, e que justamente por isso não cabem a nós resolver. Consumimos nossa atenção com fatos e versões que não controlamos, e pelos quais nada podemos fazer. Colocamos toda nossa energia em coisas que não nos dão qualquer retorno positivo, brigando, criticando, condenando, se angustiando, se consumindo. Sofrendo horrores, seja pelo que temos, seja pelo que não temos.  Aí, quando precisamos de tempo, atenção e energia para aquilo que verdadeiramente importa, cadê o tempo, a atenção e a energia que estavam aqui? Exatamente: desapareceram. Foram jogados fora com pessoas, problemas e situações que …

A Sala

Imagine uma sala e quatro pessoas lá dentro. Cada uma está em um canto diferente do recinto. Por conta do lugar que ocupam dentro desta sala, cada uma destas quatro pessoas enxergará a sala sob um ângulo – o seu, e só. O primeiro talvez veja a janela, mas não o armário. O segundo verá a porta, mas não o sofá. O terceiro enxergará o armário, mas não a janela; e o quarto avistará a mesa e o sofá, mas não a porta e o armário. Apesar disso, a sala continuará sendo a mesma, com sua janela, porta, armário, mesa e sofá. A sala não muda só por que as pessoas que ali estão enxergam apenas um pedaço da sala. É por isso que o ditado diz que o ponto de vista de cada um é apenas a vista do ponto onde cada um está. O Brasil é esta sala: uma sala enorme, na qual cabem mais de 200 milhões de pessoas. E como dois corpos não podem ocupar simultaneamente o mesmo lugar, cada uma destas pessoas está em um ponto diferente da sala – logo, cada uma enxerga a sala de um jeito, a partir do seu ângulo. Mesmo qu…

Para Taly, com carinho

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Nós temos a estranha mania de somente valorizar e homenagear àqueles que já se foram; que vivem longe; que estão incomunicáveis; com quem quase nunca conversamos; ignorando sumariamente quem está ao nosso lado, pertinho da gente. Mas hoje, não. Hoje eu vou homenagear uma pessoa que faz parte da minha vida todos os dias, há muito, muito, muito tempo. Alguém que está ao meu lado sempre, me fazendo companhia, me contando causos, me empurrando pra frente, apoiando minhas loucuras, me dando um abraço apertado quando um abraço apertado era tudo o que eu precisava. Falo da Talytha, claro. Porque ela é uma amiga que todos deveriam, mereciam e precisavam ter. Eu tenho certeza que, se mais pessoas tivessem amigos como eu tenho a Talytha, a gente viveria em um mundo melhor, mais leve e bonito. Afinal, se mais pessoas pudessem contar com amizades como a nossa, haveria mais pessoas felizes por aí – e pessoas felizes tornam o planeta inteiro mais feliz. Hoje a Taly faz aniversário, e tudo o que eu poss…

Ração e Reação

Se existe algo ainda capaz de me chocar no ser humano é a sua incapacidade de ver o direito do outro com a mesma importância com a qual vê os seus próprios direitos. Falamos em caridade e fraternidade, mas, na prática, tratamos os nossos desejos e necessidades como se fossem mais urgentes e relevantes que os desejos e necessidades do vizinho. Um exemplo recente: a ração humana, também conhecida como farinata, que a Prefeitura de São Paulo resolveu distribuir à população em situação de vulnerabilidade social através do programa Alimento para Todos, criado na gestão de João Doria. Trata-se de uma espécie de farinha produzida a partir de ingredientes cuja data de validade está próxima, ou que estão fora do padrão de comercialização. Ou seja: algo que provavelmente seria descartado, jogado no lixo, vira comida para as camadas sociais mais pobres. Nesta sociedade doente que integramos, há quem não veja problema nenhum em dar ração para pessoas. “Melhor do que passar fome, né?”, argumentam. …

Contra-Ataque Underground

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Quando eu tinha uns 10 anos eu e meu primo Leandro “editávamos” uma revista chamada “Gatos Contra-Atacam”. Era uma revista de histórias em quadrinhos que girava em torno de dois gatos chamados Minhau e Minhaula, que eram irmãos e se metiam em mil aventuras, haha. Havia vários outros personagens, e a revistinha teve muitas edições. Tenho os originais guardados até hoje. Eu fazia tudo à mão com caneta, e depois tirava xerox, grampeava e vendia pra família. Sim, eu VENDIA. Meus pais, tios e avós inclusive tinham uma assinatura e recebiam edições mensais, HAHAHA. Sensacional! (A propósito: obrigada, família!). O fato é que a primeira coisa que pensei em ser quando crescer foi “dona de uma revista”. Eu nem sabia direito o que isso significava, mas era o meu plano A. Quando eu finalmente cresci, parei de produzir os gibis dos “Gatos Contra-Atacam”, mas a ideia da revista nunca saiu da minha cabeça. Ficou ali engavetada, guardadinha no meu sótão mental em um lugar de fácil acesso. Portanto, o…

Perguntas, eu tenho

A maioria das religiões costuma exigir de seus seguidores a certeza absoluta. Não é permitido duvidar, sob o risco de ofender a deus. Quem questiona não tem fé, não é fiel. Justamente por isso, nenhuma religião conseguiu me atrair em meus 32 anos de vida. Porque eu sou uma pessoa cheia de dúvidas, e não aceito respostas prontas e superficiais para os meus muitos questionamentos. “Por que sim” nunca foi resposta pra mim. Entendo que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, e que sequer temos condições mentais e emocionais de entender a magnitude do todo; mas ainda prefiro ficar sem respostas a ter de engolir respostas simplórias para perguntas complexas. Recuso-me a me submeter a regras que não compreendo. A questão é que muitas pessoas precisam de uma religião para se manter na linha. Não conseguem formar, sozinhas, o seu próprio código de conduta, e por isso necessitam da religião para dizer o que é certo e o que é errado. Precisam integrar um rebanho, poi…

Sótão mental

“Considero o cérebro de um homem como sendo inicialmente um sótão vazio, que você deve mobiliar conforme tenha resolvido. Um tolo atulha-o com quanto traste vai encontrando, de maneira que os conhecimentos de alguma utilidade para ele ficam soterrados, ou, na melhor das hipóteses, tão escondidos entre as demais coisas que lhe é difícil alcançá-los. Um trabalhador especializado, pelo contrário, é muito cuidadoso com o que leva para o sótão da sua cabeça. Não quererá mais nada além dos instrumentos que possam ajudar o seu trabalho; destes é que possui uma larga provisão, e todos na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o dito quartinho tem paredes elásticas e pode ser distendido à vontade. Segundo as suas dimensões, há sempre um momento em que, para cada nova entrada de conhecimento, a gente esquece qualquer coisa que sabia antes. Consequentemente, é da maior importância não ter fatos inúteis ocupando o espaço dos úteis”.
(Sherlock Holmes, no livro “Um Estudo em Vermelho”)