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Por Bráulio Bessa

Um cachorro não se importa com o valor do seu salário, não liga pra sua roupa, não tira extrato bancário. Não sabe o que é dinheiro, viagens pro estrangeiro, nem quer morar em mansão. Ele só quer o seu carinho e, quem sabe, um cantinho dentro do seu coração. Eu nunca vi um cachorro desmatando uma floresta, maltratando seu planeta e o pouco que lhe resta. Não polui rio nem mar, nem tampouco vai marchar pra começar uma guerra, por dinheiro, ambição, racismo, religião ou um pedaço de terra. Duvido ter um cachorro envolvido em mensalão, se envolvendo em lava-jato ou latindo em delação, discursando numa praça contra sua própria raça. Raciocine, eu lhe peço: não tem bicho investigado, muito menos condenado nos canis lá do congresso. Sem diploma, sem estudo, é mestre e professor da mais bela disciplina: a matéria do amor. E o homem, mesmo estudado, vive sendo reprovado, e não aprende a lição que é tão simples entender. Basta a gente perceber como é que vive um cão. Uma vida que é tão breve, por…

Lugar de Fala

Sabe por que eu nunca ministrei uma palestra sobre ser deficiente físico no Brasil? Porque eu não tenho nenhuma deficiência física. Posso ler todos os artigos já publicados sobre o tema, posso conversar com dez mil deficientes físicos, posso ir a palestras e seminários que abordam o assunto. Eu jamais saberei o que é SER deficiente físico. Por isso, se o assunto me interessa, eu vou procurar aprender sobre ele, mas de jeito nenhum poderei falar sobre deficiência física melhor do que um deficiente físico. Isso se chama Lugar de Fala: tirar qualquer mediador do caminho e entregar o microfone para quem, de fato, sofre a limitação e o preconceito. Deixar o protagonismo com quem sente na pele. Parece óbvio, mas como tudo que parece óbvio, não é. Porque é bastante comum ver pessoas falando com autoridade e convicção sobre assuntos que simplesmente ignoram – como seria eu, discursando sobre ser deficiente físico no Brasil. Então o homem quer dar sua opinião sobre a necessidade do feminismo, sob…

A cova do bandido

Em Carazinho, assim como em todo território nacional, a violência está fora de controle, e parece somente aumentar. Crimes que só víamos na televisão passaram a acontecer bem debaixo dos nossos narizes. Então colocamos grades nas portas e janelas, compramos cadeados, cercamos nossas casas e andamos por aí arredios e desconfiados. Assaltos, assassinatos, bestialidade e salve-se quem puder. Neste contexto, é compreensível que a população fique puta dentro das calças. Ninguém gosta de viver com medo. Logo, a insegurança e a indignação despertam em nós o que ainda temos de mais selvagem e primitivo. E como todo animal assustado e encurralado, nossa reação natural é atacar. Deste modo, movidos pelos nossos instintos mais básicos, enfurecidos e insensatos, passamos a acreditar em soluções rasas para resolver problemas profundos, como é o da violência. Bradamos por pena de morte; queremos linchar o bandido; exigimos andar armados para matar antes de morrer. A raiva e a revolta nos fazem procur…

Calar a boca

Dentre todos os desafios que encaramos ao longo de nossa vida, creio que o mais complicado seja aprender a ficar quieto. É algo que simplesmente não conseguimos fazer. Parece que possuímos uma necessidade fisiológica de dar nossa opinião sobre absolutamente tudo, da escalação do time à vida amorosa da vizinha, do atentado terrorista à nova música da Anitta. O que não conseguimos fazer é ficar calados. Acredito que uma das explicações para este fenômeno de massa é o desejo latente e incontrolável de impor nossa opinião ao outro; de convencê-lo de que nós estamos com a razão. Gostamos de doutrinar. Sacamos o microfone e monopolizamos o assunto, especialistas que somos em todas as áreas do conhecimento humano. Apesar disso, dizemos por aí que não nos importamos com o que os outros acham. Que cagamos e andamos para a opinião alheia. Porém, se alguém discorda ou critica, se ousa pensar diferente, já ficamos irritados e ansiosos. E lá vamos nós convencer o próximo das nossas verdades absoluta…

Desaprendo

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Ontem eu completei 33, e posso dizer que desaprendi muitas lições ao longo destas três décadas e três anos de vida. Sim, eu desaprendi pra caramba, e sigo desaprendendo todos os dias. Sou grata por isso. Afinal, desaprender uma lição errada pode ser tão ou mais difícil do que aprender uma certa. E convenhamos: ao longo dos anos nós aprendemos muitas lições equivocadas ou, no mínimo, duvidosas. Lições repetidas geração após geração, século após século, que buscam somente padronizar, moldar, acomodar, transformando o complexo em simplório, enfiando as pessoas em caixinhas rotuladas e minúsculas. Como se vendessem só um número de calçado. Quem tem o pé maior ou menor, que se aperte e se adapte. Desaprender tais lições é tarefa árdua, pois haverá mil à tua direita julgando tuas decisões, e outros mil à tua esquerda contestando tua sanidade. Porém, sem desaprendê-las, seguiremos caminhando capengas, usando sapatos pequenos ou grandes demais, tornando a nossa jornada mais penosa e dolorida. Lo…

“Ela é uma vagabunda”, disse a mulher

Aconteceu aqui perto: uma moça casada descobriu que seu marido tinha uma amante e resolveu se vingar; porém não do marido. Assim, colou por toda a cidade vários cartazes com uma foto da amante nos quais se lia: “A Fulana de Tal (nome e sobrenome) é uma vagabunda e sai com homem casado”. Ok. Inicialmente é importante indagar: quem deve fidelidade e respeito pra esposa? O marido ou todas as outras mulheres da face da Terra? Esclarecida esta questão, devemos observar que tal situação expôs negativamente apenas e tão somente a esposa e a amante; não o marido, nunca o marido. Das três pessoas envolvidas na confusão, só ele se deu bem. Porque agora ele é o garanhão, o comedor, o pegador, o macho alfa, ao passo que a amante é a vagabunda e a esposa, a chifruda. E é por isso que nós, gurias, precisamos parar imediatamente de nos tratar como rivais. Afinal, enquanto ficamos aqui, brigando por causa de homem e nos chamando de vagabundas, eles apenas ganham força e se divertem afagando o próprio …

Os dois lados da educação de qualidade

É de conhecimento geral que a educação no Brasil está agonizante, e não é de hoje. Segundo pesquisa da UNESCO, nosso desempenho em educação ocupa o medonho 88º lugar, em uma lista de 127 países. Nosso currículo está defasado; nossas escolas, demolidas; nossos professores, exaustos; e nossos alunos cada vez mais distantes das salas de aula. O resultado? Um povo que não lê, que não vê, que não conecta, que não pensa. Que repete ao invés de questionar. Um povo incapaz de transformar informação em conhecimento, e de escrever uma frase de duas linhas sem cometer erros hediondos de português. Existe uma medida padronizada que avalia o desempenho intelectual das pessoas baseada em resultados de testes específicos – chama-se Quociente de Inteligência, o famoso QI. Está associado ao lado esquerdo de nosso cérebro, responsável pelo raciocínio lógico. Aumentar e aperfeiçoar o Quociente de Inteligência de cada aluno deve ser um dos objetivos primordiais de toda educação que busca a excelência. Co…