O Tempo

O tempo é algo valioso. Não percebemos isso até que o perdemos: com discussões inúteis, com trabalhos maçantes, com pessoas incompatíveis, com batalhas impossíveis de vencer. Seguimos desperdiçando nosso tempo como se ele fosse infinito, interminável, eterno. Mas, de repente, quando nos damos por conta, há mais tempo no passado do que no futuro. É a fatídica hora de olhar pra trás e ver o que diabos fizemos com os nossos dias.
E quando esta hora chegar pra mim, eu não quero lamentar.
Dito isto, e consciente de que o tempo é tão valioso quanto finito, informo a quem interessar possa que este é meu novo blog. Criei meu primeiro em 2008, e de lá não saí mais. No antigo blog da Jana estão meus trabalhos iniciais como escritora e editora, minhas opiniões tortas de anos atrás, minhas percepções, distrações, elucubrações. Eu tinha 23 anos quando criei este blog, então calcule quantas Janaínas eu fui enquanto o enchia de conteúdo e caracteres.
Mas algo se manteve intacto durante todos estes anos: minha crença de que a força está no grupo. Desde que iniciei meus trabalhos com literatura, seja escrevendo, seja editando, sempre acreditei que, se um ajudar o outro, a roda gira mais rápido, e todos ganham.
Por isso, em dez anos, organizei uma dezena de coletâneas, que juntas publicaram mais de duas centenas de autores. Por isso divulguei dúzias de novos escritores através da Teia, um projeto de marketing literário virtual. Por isso editei mais de trinta autores solos quando trabalhei na Editora Multifoco. Por isso colaborei na organização de seis eventos de arte e cultura em Carazinho/RS e Não-Me-Toque/RS, que abriram espaço para artistas locais divulgarem e comercializarem suas obras. Por isso estou investindo tempo e dinheiro editando uma revista, que reúne mais de 90 artistas locais – a Obscena, cujo lançamento será em novembro deste ano.
Caminhei um monte nestes quase 10 anos de estrada. Fiz coisas muito legais, das quais tenho o maior orgulho. Olho para trás e fico feliz e realizada, mas se olho para frente, não é o que espero ver quando, daqui alguns anos, olhar pra trás outra vez.
Procurei sempre retribuir a ajuda que recebi, e ainda recebo, em meu trabalho literário. Continuo achando que a força está no grupo, mas enxergo esta parceria em cada vez menos pessoas e lugares. A força de um grupo está na lealdade de cada membro. No comprometimento de cada um. No empenho de todas as partes. Quando isso não acontece, a base declina, rompe, perde a sustentação.
Vi isso acontecer tantas vezes em meus dez anos de trabalho que sou incapaz de contar. Projetos incríveis e promissores, mas que, por depender do envolvimento do todo, terminaram em nada.
Injetei muito da minha energia nestes trabalhos coletivos. Investi tempo, este bem tão precioso, e investi também suor, dinheiro, atenção e lágrimas, inclusive. Fiz mais pelos projetos do grupo do que fiz pelos meus projetos pessoais.
Quando percebi, eu era uma editora. Uma promotora cultural. Uma organizadora. Dedicando mais tempo ao trabalho do outro do que ao meu próprio trabalho. Colocando mais dinheiro e energia no grupo do que em mim.
Aconteceu o que sempre acontece: quando não recebi de volta a mesma dedicação que ofereci, fiquei de cara. Indignada. Puta dentro das calças. Ponderei que era muito foda dar aos outros meu tempo – preciosíssimo! – e receber de volta migalhas, descaso e, não raramente, desaforo.
Isso me aporrinhou por horas e horas, dias e dias. Lá estava eu, novamente fazendo meu tempo querido de capacho, ruminando as tretas, sem conseguir engoli-las e digeri-las, mas também sem conseguir cuspi-las fora.
Foi então que comecei a perceber que estava sendo assombrada por um fantasma maligno, perigoso, assassino, chamado FRUSTRAÇÃO. Eu sei, e você sabe, que depois que a frustração ataca, é difícil se defender. Ela é capaz de destruir tudo o que encontra pela frente, levando você a esquecer os motivos que o moveram a fazer tudo o que você fez até hoje.
No meu caso, escrever.
Identificado o fantasma que me assombrava, tratei de exorcizá-lo antes que fosse tarde demais.
E este novo blog, “assinado Jana”, marca este exorcismo.
Marca também um novo jeito de olhar para minha própria literatura, e o trabalho que procuro realizar em torno dela.
O tempo, meus amigos, é algo valioso, e a literatura também é.
Nenhum dos dois deve ser desperdiçado – porque os anos passam voando, e quando chegar a hora de olhar novamente para trás, eu espero continuar sorrindo.
Assinado Jana.



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