Os Magníficos e a Ralé

Recentemente, o Clovis Ravizoni, editor do jornal "O Informativo Regional", publicou no Facebook a notícia de que 50 casas foram queimadas, e mais de 300 índios foram expulsos de uma reserva em Charrua. Como geralmente acontece, os comentários sobre a notícia foram de perder a fé na humanidade: algumas pessoas reagiram à publicação rindo. Uma moça sugeriu que sua amiga, que defende as minorias e mora em uma casa grande, levasse os índios para lá. Tânia achou tudo muito engraçado, e escreveu “Hahaha”. Já Nathan recomendou que “fincassem fogo”, e ainda ordenou: “quem tá com pena que adote”. O Douglas também participou, e afirmou que “só não fala o que pensa por que dá cadeia”.
Lá por 1930, um cara chamado Adolf, de sobrenome Hitler, também pensava assim. Para ele, os judeus eram o problema da Alemanha. Mas não só os judeus: os ciganos, os negros, os latinos também. Na verdade, qualquer um que não fosse alemão. Para Adolf, só ele e os alemães prestavam; o resto era escória, e sequer mereciam ser tratados como animais.
Sabem o que Adolf fez? Exatamente o que Tânia, Nathan e Douglas sugeriram em seus comentários: ele expulsou pessoas de suas casas, tacou fogo, humilhou, matou, queimou, torturou e ainda deu risada. E foi assim que surgiu o Terceiro Reich, que terminou com milhões de cadáveres e uma Alemanha em destroços.
A ideia do nazismo e a ideia destas criaturas, que comentaram a notícia, é uma só: existem seres humanos melhores do que outros – e “os superiores” obviamente devem esmagar “os inferiores”. Existem NÓS, os magníficos, e existem ELES, a ralé. Para estas pessoas, o ideal seria acabar com todos aqueles com os quais não se identifica – não só os índios, mas também os imigrantes, os viciados, os miseráveis, os mendigos. Qualquer um que destoe delas mesmas. Para estas pessoas, sua vida vale mais do que a vida do índio. Seus direitos são mais importantes que os direitos dos viciados. Seu bem-estar é mais urgente que o bem-estar dos imigrantes. Estas pessoas, tal e qual Adolf, acreditam que estão acima das demais.
Durante muito tempo tive pena de gente como a Tânia, o Nathan, o Douglas, e até o Adolf, pois imaginava o quão triste deveria ser viver nesta escuridão emocional absoluta. Acreditava que alguém incapaz de ver outro ser humano como ser humano era alguém extremamente infeliz, uns pobres coitados, uns ignorantes.
Mas hoje eu penso diferente.
Hoje, ao invés de pena, eu sinto é medo de gente assim. Medo de que a história mais uma vez se repita. Medo de que, num belo dia, estaremos enviando para a fogueira índios e imigrantes, viciados e mendigos, e todos aqueles que não se encaixarem em nossos padrões miúdos e míopes.
É o que a Tânia, o Nathan e o Douglas gostariam de fazer: destruí-los. Eliminá-los. Acabar de vez com “essa praga”.
E foi exatamente o que Adolf, de sobrenome Hitler, fez. 

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