Ração e Reação

Se existe algo ainda capaz de me chocar no ser humano é a sua incapacidade de ver o direito do outro com a mesma importância com a qual vê os seus próprios direitos. Falamos em caridade e fraternidade, mas, na prática, tratamos os nossos desejos e necessidades como se fossem mais urgentes e relevantes que os desejos e necessidades do vizinho.
Um exemplo recente: a ração humana, também conhecida como farinata, que a Prefeitura de São Paulo resolveu distribuir à população em situação de vulnerabilidade social através do programa Alimento para Todos, criado na gestão de João Doria. Trata-se de uma espécie de farinha produzida a partir de ingredientes cuja data de validade está próxima, ou que estão fora do padrão de comercialização. Ou seja: algo que provavelmente seria descartado, jogado no lixo, vira comida para as camadas sociais mais pobres.
Nesta sociedade doente que integramos, há quem não veja problema nenhum em dar ração para pessoas. “Melhor do que passar fome, né?”, argumentam. É o mesmo princípio utilizado para criticar pessoas de baixa renda que adquirem produtos caros, como, por exemplo, um tênis Nike ou um iPhone. “Não tem onde cair morto, mas o tênis dele é mais caro que o meu”, dizem indignados.
Se você não tem onde cair morto está sumariamente proibido de ter os mesmos desejos e vontades dos outros, que têm. Então agradeça pela ração que irá comer, enquanto eu degusto aqui meu filé com batatas e molho branco.
Afinal, eu quero filé com batatas e molho branco, pão fresquinho, churrasco, bolo de chocolate, mas o pobre pode se contentar com ração, por que, né? Melhor do que passar fome. Eu quero tênis Nike, mas o miserável que se satisfaça com um chinelinho velho. Melhor do que andar de pés descalços.
O que estas pessoas, que repetem estes padrões de comportamento desumanizadores, não entendem, é que o filho da empregada quer o celular da moda exatamente como o teu filho quer. Ele também quer filé com batatas e molho branco, tal e qual você. Do mesmo jeito que você e o seu filho, a tua empregada e o filho dela não querem comer ração no jantar. Eles querem viver, não só sobreviver, assim como eu e você.
Mas a sociedade diz que, se o pobre não morrer de fome, já está ótimo, e não há do que reclamar. Se o miserável tiver o mínimo, que se dê por satisfeito, enquanto eu como pão fresquinho, filé e churrasco, tenho cinco pares de tênis, ar-condicionado, bolo, chocolate, casa, comida e roupa nova.
Uma sociedade que considera razoável dar ração para seres humanos é uma sociedade perigosa, mas, acima de tudo, estúpida. Porque, ao desumanizar o indivíduo, a sociedade o agride. Ao agredi-lo, é de se esperar que ele a agrida de volta. Se tratarmos o ser humano como um animal, como um animal o ser humano reagirá. E aí todos ficam muito injuriados, se perguntando quando esta violência terá fim.
Quando esta violência terá fim, eu realmente não sei. Mas consigo imaginar quando foi que ela teve início.

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