Lugar de Fala


Sabe por que eu nunca ministrei uma palestra sobre ser deficiente físico no Brasil? Porque eu não tenho nenhuma deficiência física. Posso ler todos os artigos já publicados sobre o tema, posso conversar com dez mil deficientes físicos, posso ir a palestras e seminários que abordam o assunto. Eu jamais saberei o que é SER deficiente físico.
Por isso, se o assunto me interessa, eu vou procurar aprender sobre ele, mas de jeito nenhum poderei falar sobre deficiência física melhor do que um deficiente físico.
Isso se chama Lugar de Fala: tirar qualquer mediador do caminho e entregar o microfone para quem, de fato, sofre a limitação e o preconceito. Deixar o protagonismo com quem sente na pele.
Parece óbvio, mas como tudo que parece óbvio, não é. Porque é bastante comum ver pessoas falando com autoridade e convicção sobre assuntos que simplesmente ignoram – como seria eu, discursando sobre ser deficiente físico no Brasil.
Então o homem quer dar sua opinião sobre a necessidade do feminismo, sobre estupro, sobre menstruação, sobre maternidade. O heterossexual quer dizer o que pensa sobre homossexualidade, homofobia, casamento gay. O branco quer definir o que é racismo e o que não é. E eu quero falar sobre ser deficiente físico no Brasil.
O que eu quero dizer é: sim, você pode ter uma opinião sobre realidades que não vive. O que você não pode é querer ser o dono da verdade em assuntos que desconhece, porque basicamente não tem como você conhecer.
No entanto, nós podemos ouvir. Podemos calar a boquinha, sentar no banquinho e escutar caladinho o que dizem aqueles que vivenciam o que não vivenciamos.
Além de respeitoso e sensato, isso é muito inteligente, pois assim poderemos expandir nosso pequeno universo, e aprender sobre a vida, a rotina, os medos e os sentimentos de outras pessoas, além daquela que enxergamos refletida no espelho.
Porque, na verdade, não importa o que eu ou você pensamos sobre ser deficiente físico no Brasil. 
A não ser, é claro, que você seja.

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