Porra, maridos!


Recentemente, surgiu nas redes sociais a hashtag #PorraMaridos que, assim como ocorreu em campanhas anteriores, buscou reunir relatos de violência contra a mulher, seja esta violência física, verbal, mental ou sexual.
#PorraMaridos trouxe histórias de mulheres descrevendo situações em que seu companheiro se fez de sonso para passar bem: tem o que não colocou a roupa de molho porque não sabia se usava um balde ou uma bacia. O que esqueceu a própria mala em uma viagem e reclamou dizendo que a esposa era a culpada por não lembrá-lo. O que se recusou a recolher o cocô do cachorro porque “não tinha estômago pra isso”. O que não lavava as panelas porque não sabia o que fazer com a comida que está dentro. O que deixou a mulher sozinha no hospital porque estava com um pelo encravado “que doía muito”. Aquele que colocou a roupa na máquina de lavar, conforme a esposa pediu, mas que não ligou a máquina porque, afinal, isso ela não pediu.
Dezenas, centenas, milhares de depoimentos de mulheres de todas as idades, classes, credos e cores, todas relatando basicamente a mesma coisa: a negligência total e absoluta de seus parceiros para a manutenção saudável da vida a dois.
Naturalmente, os membros do time “mas nem todo homem” se manifestaram com uma rapidez que não demonstram na hora de lavar a louça, alegando que “se eu faço, minha mulher reclama, então deixo que ela faça”, ou que “não faço porque nunca está bom pra ela”. Ou a minha preferida: “ela faz porque gosta”. Risos desesperados.
Em primeiro lugar, meus caros, não há uma criatura no planeta Terra que goste de colocar roupa de molho ou recolher cocô de cachorro. Segundo: não surpreende as reclamações e a falta de confiança em homens que não sabem o que fazer com a comida na panela ou que sejam incapazes de carregar a própria mala.
Sem contar que os relatos gerados através da campanha #PorraMaridos não são sobre você, meu caro. Não tem a ver com João, Pedro ou Paulo. Não se trata do indivíduo, mas de uma construção coletiva de masculinidade altamente tóxica, que mantém os homens em uma zona de conforto na qual alguém, geralmente uma mulher, está sempre trabalhando para tornar a sua vida mais fácil.
O que estes relatos deixam muito claro é que, além da mala que o marido esqueceu de levar na viagem, a mulher também precisa carregar toda a carga emocional do relacionamento e da família. Ela é a responsável pela criação e educação dos filhos, pela logística da casa, pela higiene e bem-estar do marido, pela felicidade geral da nação.
A mulher cuida do lar, da mente, do corpo e do coração de todos, exceto dos seus, e isso tem que parar. Porque, ao contrário do que tentam nos convencer, não somos mártires abnegadas que padecem no Paraíso por aqueles que amamos.
Relacionamento pressupõe parceria, que pressupõe divisão de carga, alívio, colaboração. Mas, se além da tua bagagem, você carrega também a bagagem do seu parceiro, enquanto ele segue assobiando com as mãos nos bolsos, é hora de repensar.
Porque se o teu companheiro não divide, não alivia e não colabora, ele não é seu companheiro; é o seu fardo. Um fardo que você não precisa carregar.

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