Forte e Foda


A primeira vez que li Fernanda Young, “Vergonha dos Pés”, lançado em 1996, eu tinha 12 ou 13 anos e caminhava por aquele limbo escuro e frio entre a infância e a adolescência. Entre ser o que esperavam de mim e ser eu. Com 12 ou 13 anos, eu já suspeitava que o papel da mulher, forjado e imposto por uma sociedade no mínimo equivocada, era uma bela de uma bosta. Senta direitinho. Fale baixinho. Seja boazinha. Não responda. Fecha as pernas, menina! Não é assim que se comporta uma mocinha!
Não, eu não queria me comportar como uma mocinha. Não queria sentar direitinho, falar baixinho e ser boazinha. Não queria diminutivos para mim.
Eu queria ser forte e foda, mas a maioria das representações de mulheres que eu conhecia naquela época, pela TV, revistas e jornais, era o oposto disso: elas eram frágeis, sempre à espera de um salvador montado num cavalo branco; eram todas padronizadas, dóceis, comportadas e obedientes, obcecadas em agradar. Belas, recatadas e do lar.
Deus me livre ser assim.
Aí conheci a Fernanda, lá por 97 ou 98. Ela era foda e forte e ainda mais: era desbocada, descabelada, selvagem, questionadora, indomável, respondona, dona de uma ironia e de uma criatividade arrebatadoras. Não era doce, era ácida. Não queria agradar, queria provocar o caos, e provocava. Fernanda Young rasgava e cuspia na cartilha da boa moça, e escrevia como quem contra-ataca. Sim, ela ainda escrevia, exatamente como eu queria escrever.
Com 12 ou 13 anos eu me apaixonei perdidamente por Fernanda Young. Foi ela quem me mostrou que, nesta sociedade machista, hipócrita e violenta, que enquadra e silencia, precisamos ser antagonistas. Precisamos revidar. Precisamos gritar cada vez que nos mandam falar mais baixo. Precisamos enfrentar e fazer tudo o que nos ordenam não fazer. Porque nós somos FODAS e FORTES, todas nós, e a sociedade que se vire para dormir com o barulho que somos capazes de fazer – e fazemos.
Por tudo isso, é claro, Fernanda era um dos alvos preferidos do conservadorismo estúpido e patológico que infesta nosso Brasil. Os reacionários, os retrógrados, os opressores, eles a odiavam, o que é mais um, entre tantos motivos, para amá-la. Chamavam-na de louca, de puta, de tudo, e criticavam sua aparência e sua literatura, numa tentativa vã de derrubá-la. Calá-la. Assustá-la. Nunca conseguiram, os pobres coitados. Fernanda sabia muito bem que a crítica de alguns é elogio. E quanto mais apontavam seus dedinhos sujos e julgadores em sua direção, mais ela falava e escrevia, mais ela resplandecia e se agigantava e mais alto gritava. Mais foda e mais forte ela se tornava.
Fernanda Young era uma força da natureza. Tarja preta contraindicada para caretas. Por onde passava, conflagrava um motim. Ela era anarquia e subversão em seu estado puro; revolucionava apenas por existir.
Eu cresci tendo Fernanda como inspiração e como sou grata por isso! Com ela descobri que, ao contrário do que me ensinaram, eu devo falar alto sim – por isso tenho voz. Aprendi que devo sentar como eu quero, viver como eu quero, fazer o que eu quero, escrever do jeito que eu quero. Aprendi que meu corpo é meu, que a minha literatura é arma, bala e escudo, e que eu não devo ser boazinha com uma sociedade tacanha, autoritária e filha da puta, que enquadra, embala e rotula as mulheres como se elas fossem comida enlatada.
E agora, justamente agora, que tanto precisamos de Fernanda Young e de sua voz, de seus textos, de sua inquietude, de sua rebeldia e insubmissão, ela se vai.
No lugar de seus gritos, o silêncio.
No lugar de sua presença, o vazio.
No lugar de suas palavras, a folha em branco.
Resta-nos o que ela deixou, e foi muito: livros, peças, séries, crônicas, entrevistas, rascunhos, poesia. Ideias.
É assim que Fernanda Young seguirá assombrando esse país careta, abandonado e triste, no qual continuamos, exaustos e cheios de saudade de sua luz.


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